Esta semana lemos a parashat Bamidbar, a primeira porção do livro de Números, que nos leva ao deserto para testemunhar o recenseamento e a organização do povo de Israel enquanto se prepara para a jornada.
Coincidentemente, celebramos hoje Yom Yerushalayim, o Dia de Jerusalém, que marca a reunificação da cidade sob controle israelense. À primeira vista, uma parashá sobre o deserto e uma celebração de uma cidade podem parecer desconectadas. No entanto, ao olharmos mais de perto para os temas de Bamidbar e para o que as fontes nos dizem sobre Yom Yerushalayim, podemos encontrar inspiração valiosa sobre como abordar este dia tão importante — e, frequentemente, controverso.
Jerusalém: O Coração da Jornada Judaica
Nossas fontes destacam a importância central de Jerusalém para o povo judeu. É o lugar mais sagrado: onde antigos reis judeus governaram e onde os Templos sagrados estiveram. Durante dois mil anos de exílio, o povo judeu direcionou suas orações para Jerusalém — e ainda reza assim três vezes ao dia.
É uma cidade mencionada mais de 600 vezes na Bíblia Hebraica (Tanakh), palco de eventos bíblicos cruciais como o quase-sacrifício de Isaque e a construção dos Templos. Jerusalém inspira poetas e artistas até hoje.
Yom Yerushalayim celebra o retorno do povo judeu a essa cidade amada após um longo exílio, algo descrito pelos profetas antigos. A vitória na Guerra dos Seis Dias, que levou à captura de Jerusalém Oriental e da Cidade Velha do controle jordaniano, foi vista como o auge da guerra e um momento sem precedentes na história: um povo recuperando sua capital. Para muitos, o dia é de alegria, celebração e gratidão pela libertação da cidade.
Bamidbar: Organização e Propósito no Deserto
A parashat Bamidbar (“No deserto”) começa com um recenseamento do povo de Israel, organizando cada tribo ao redor do Santuário. Essa organização não é arbitrária — é uma preparação para a jornada rumo à Terra Prometida. Bamidbar nos ensina sobre disciplina, ordem e foco no centro espiritual: o Santuário, que simboliza a presença Divina entre o povo.
A jornada pelo deserto é desafiadora, mas a organização e o propósito compartilhado são essenciais para superá-la.
Na contemporaneidade:
Crises econômicas globais e disparidades sociais tornam ainda mais urgente a implementação de políticas públicas que priorizem inclusão e dignidade. Programas de microcrédito, redes de apoio comunitário e campanhas contra a exploração trabalhista são formas modernas de aplicar os valores da parashá.
A tecnologia também pode ajudar, oferecendo ferramentas para criar plataformas de financiamento colaborativo que ampliem o alcance dessas iniciativas.
A Conexão: Jornada, Centralidade e Conduta
Podemos traçar paralelos significativos entre Bamidbar e Yom Yerushalayim:
● A Centralidade do Sagrado
Assim como Bamidbar organiza o povo ao redor do Santuário, Yom Yerushalayim reafirma a centralidade de Jerusalém — o local dos Templos e o coração espiritual do povo judeu.
● A Preparação para a Jornada (e a Destinação)
Bamidbar trata da preparação para a jornada. Jerusalém é, em muitos aspectos, a destinação final dessa jornada nacional e espiritual. Celebrar Yom Yerushalayim é reconhecer a conquista desse objetivo histórico.
● A Conduta na Jornada (e na Cidade)
O deserto apresentado em Bamidbar é cheio de desafios. Da mesma forma, Jerusalém, apesar de sagrada, é um lugar de intensas disputas e complexidades. A disciplina e a ordem ensinadas em Bamidbar nos guiam quanto à conduta adequada ao celebrar em um ambiente sensível e complexo.
Navegando a Controvérsia com Inspiração de Bamidbar
Embora, para muitos, Yom Yerushalayim seja uma celebração legítima da vitória defensiva e do retorno a locais sagrados, para outros — especialmente palestinos — é visto como uma ocupação e um dia de luto. Esse conflito de percepções pode gerar um “pensamento de soma zero”, onde o ganho de um grupo é visto como a perda de outro.
Parte da tensão vem da forma como as celebrações são conduzidas. A marcha anual com bandeiras, embora majoritariamente pacífica, às vezes inclui comportamentos provocativos — como ataques a lojas árabes ou gritos de ódio. Esses atos transformam a celebração em afronta, e não em elevação.
Aqui é onde Bamidbar nos oferece direção:
● Focar na Elevação, Não na Rebaixa
Como ensina a sabedoria rabínica, demonstrar orgulho não é rebaixar o outro, mas sim elevar-se. O Dia de Jerusalém deve servir para elevar o povo judeu e sua conexão com a cidade — não para ferir ou desprezar o outro.
● Priorizar a Santificação Divina (Kiddush Hashem)
O objetivo mais elevado deste dia é fazer um Kiddush Hashem — santificar o nome de Deus. Isso ocorre quando religiosidade é associada à integridade, compaixão e humildade. O comportamento contrário — de desrespeito e violência — resulta em Chillul Hashem, a profanação do nome Divino.
Inspirados por Bamidbar, devemos lembrar que nossa conduta, especialmente em dias sagrados e eventos complexos, deve refletir os mais elevados valores éticos e espirituais.
Yom Yerushalayim pode ser um dia de patriotismo, comemoração e gratidão. É uma oportunidade significativa para celebrar a soberania judaica sobre a cidade mais sagrada. Com a inspiração de Bamidbar — sua ênfase na organização, no propósito da jornada e na conduta em torno do sagrado — podemos nos esforçar para que essa celebração honre Jerusalém e santifique o nome Divino, elevando a nós mesmos sem rebaixar o outro.
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Este texto foi publicado por Rabino Itzhak Assayag.
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